
O filho do europeu com a índia, ou com a negra, não era índio, não era negro, não era europeu. Nem podia ser. Era brasileiro. Uma raça nova mestiça na carne e no espírito.
Brasil: uma nação de quase 200 milhões de habitantes criativos e corajosos acima de tudo, que sobrevivem e lutam mesmo nas situações mais adversas. Mas de onde viemos? Quem são esses 200 milhões de brasileiros que povoam toda essa terra de beleza geográfica, riqueza natural e injustiça social?
Originamos basicamente de três culturas distintas: a indígena, a luso e a africana. Antes mesmo da chegada dos portugueses nos idos de 1500, já existia aqui, na Ilha Brasil, a comunidade indígena com toda sua estrutura social. Um índio, dentro da cultura de seu povo é acima de tudo, auto-suficiente. Ele é capaz de fazer, com suas próprias mãos, tudo aquilo que necessita para viver toda sua vida: constrói a sua casa, produz seu próprio alimento através da caça, pesca e agricultura, e tem o conhecimento medicinal de ervas e frutos. Na cultura indígena não há uma distinção clara entre trabalho e arte, já que cada coisa feita por um índio é o seu próprio retrato, daí a extrema perfeição de suas peças artísticas ou ritualísticas. Consideram a terra um bem comum e seus líderes não são os mais ricos ou fortes, mas sim os possuidores de maior conhecimento.
Os portugueses, responsáveis pela nossa “colonização”, por sua vez carregavam em si a natureza vanguardista de serem a primeira nação do mundo. O fato de ser um país cercado por mar o transformou em um país de pescadores e navegadores com alta tecnologia naval. Tornar-se “desbravador” foi apenas questão de tempo.
Dizermos que o Brasil é um país inter-racial é mais do que falarmos sobre a mistura das três culturas acima citadas, já que Portugal por si só já uma nação com forte influência árabe e israelita, por exemplo. Sendo assim, a caravana do descobrimento já era composta de um povo mestiço.
Os primeiros negros a chegarem a nossas terras vieram da Nigéria, Angola e outras partes do continente africano atravessando o Oceano Atlântico e vieram a ser a massa substancial da força de trabalho que fizeram a história do Brasil. A cultura afro, e toda imensidão de línguas e povos distintos que ela representa, foi defendida com suor, sangue e lágrimas por todos os negros marginalizados para que as gerações futuras pudessem ser influenciadas por suas tradições. Tamanha determinação foi responsável pela forte presença delas em toda a cultura brasileira.
Traços dessa miscigenação são vistos em todos os campos da nossa produção artístico-cultural, nos nossos costumes e na nossa língua. Nossa língua, como o próprio nome diz, tem base no dialeto português mas foi “acrescido” de vocábulos próprios da nossa terra, vindos dos dialetos tupis ou afros, como moleque, ou caçamba, por exemplo. No âmbito artístico podemos citar a arte sacra mineira, fruto da intervenção portuguesa; os batuques nordestinos e a tão tradicional escola de samba carioca, herança dos negros africanos ou nosso colorido tropical vindo das plumas do artesanato indígena.
“Do Romantismo brasileiro do século XIX até as chamadas ‘artes pós-modernas’ podemos ver sinais das nossas origens inter-raciais. Num primeiro momento era a busca da identidade nacional, a tentativa de expressar o que é a ‘alma brasileira’, valorizar os elementos indígenas e ‘mulatos’. Isso é feito de maneira mais sistemática pelos modernistas, a referência mais conhecida que temos é a Semana de Arte de São Paulo, em 1922. No entanto, a chamada ‘arte popular’, feita nas feiras por artistas anônimos, aglutina muitos sinais de nossa origem ‘mestiça’. Esse artista traz na alma e na pele essa mistura.” - diz Irinéia Franco, professora de História da Arte na Universidade Paulista - UNIP, em São Paulo.
Ainda sobre a busca de identidade cultural, Irinéia diz que, embora tenhamos a nítida impressão de que todas esses anos de lutas e batalhas não resultaram em nada se nos compararmos a países de primeiro mundo como os EUA, por exemplo e tendo em vista todos os problemas do nosso país, podemos afirmar que nesses pouco mais de 500 anos de história, adquirimos uma cultura nacional característica e distinta. “O que define a cultura de qualquer povo é a capacidade de manter a longo prazo elementos que permitam às pessoas daquele território se identificarem como pertencentes de uma mesma tradição. As diferentes heranças culturais aglutinadas no Brasil foram responsáveis pela formação de sua língua, costumes, crenças (religiões), etc. No entanto, esse processo de formação não se dá sem conflitos uma vez que há diferentes interesses de classe e também por questões étnicas. A cultura brasileira é única em sua diversidade. É preciso conhecer a história dessa formação cultural e entender que as chamadas ‘minorias’ são, de fato, a maioria. Penso que as culturas africanas e indígenas tem uma importância maior do que é dada a elas nos estudos oficiais. É preciso tomar cuidado também para que a ideologia da miscigenação não apague os problemas reais de racismo e intolerância que ainda existem no país.” - conclui ela.
Em seu livro “O Povo Brasileiro” (também disponível em DVD com a série de dez capítulos baseados na obra, co-produzido pela TV Cultura, a GNT e a Fundar), Darcy Ribeiro afirma que é um milagre termos nos tornado uma nação unificada, já que partimos de tantas culturas diferentes. Exemplo disso é o descompasso social em que vivemos. Carregamos em nossa herança genética a auto-suficiência indígena quando nos vemos um povo capaz de dar jeito pra tudo, inventar meios de conseguir dinheiro frente ao desemprego, lutar pela nossa sobrevivência; temos a vitalidade e a garra africana e temos a simpatia e ternura portuguesa, mas mesmo assim convivemos com a discriminação racial, responsável por grande parte desse desequilíbrio. Somos uma sociedade de origens distintas, onde cada brasileiro tem origem africana mesmo que na quinta ou sexta geração, que ainda discute o sistema de cotas para negros em universidades, na ânsia de diminuir a desvantagem de anos de história. Resquícios da escravidão.
A verdade é que ainda “inventamos” o Brasil a cada dia. Hoje mais do que nunca influenciados pela cultura mundial, já que as ferramentas de comunicação expandem, e porque não, desfazem horizontes, nossa arte é indígena, afro, lusa, americana, latina, asiática. Digerimos as influencias, produzimos nosso estilo e devolvemos para o mundo para que influencie outros.
Quem está em São Paulo, ou pretende visitar a cidade, pode conferir muito a respeito da miscigenação da origem de nossa cultura no Museu Afro Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera e que tem a curadoria do artista plástico baiano Emanoel Araújo ou no Museu da Língua Portuguesa, localizado na Estação da Luz. Moderno e com ótima infra-estrutura o museu apresenta de forma descontraída – vídeo, projeção artística e computação, entre outras formas - as origens (indígena, luso e afro) da nossa língua e do nosso povo. Você vai sentir orgulho em ser fluente nesta língua tão vasta e rica chamada Português.










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