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    Canal: Literatura - Por: Luzia Medeiros @ 12:53 am -

    “O pior que se pode fazer com o sofrimento é desperdiçá-lo”, dispara Guillermo Arriaga, em recente participação na Festa Literária Internacional de Paraty – a FLIP.

    Diante dessa declaração, que parece explicar claramente sua preferência por temas violentos e pelo sofrimento humano, uma platéia silênciosa e reflexiva se sente mais próxima do mexicano Arriaga, um dos maiores expoentes da literatura atual. Mais do que um roteirista, ele é autor de obras como “Três enterros de Melquiades Estrada”, “Amores Brutos”, “Babel” e “21 gramas”. Talvez umas das obras mais evidentes da modernidade de suas propostas.

    Dennis Lehane, autor de “Sobre Meninos e Lobos”, participando da mesma mesa que Arriaga, revelou que a realidade violenta de Boston, onde vive, o inspirou a observar “o melhor e o pior das pessoas”, mais que isso, “o melhor das piores pessoas”. Em “Sobre Meninos e Lobos”, seria muito pouco ver apenas um discurso sobre os efeitos que um crime cometido muitos anos antes, tem na vida de um punhado de homens alguns anos depois. Filmes assim falam mesmo é de cada um de nós, através dos personagens construídos pela ficção. Filmes assim mostram que todo mundo tem um lado negro, que pode vir à tona a qualquer momento.

    “A violência pode não ser agradável, mas acho que ela é sempre necessária”, afirmou Lehane. Arriaga foi além, descreveu cada momento de sua vida que deu origem às suas obras, como “21 gramas”, cujo argumento nasceu de uma infecção que ele mesmo teve no coração. Segundo sua opinião, o autor deve sempre escrever sobre a realidade à sua volta, mesmo que transformada em ficção. “O autor deve sentir o que escreve, senão fica vazio e sem força”, completa.

    Nesse contexto, o encontro entre o serra-leonês Ishmael Beah – de 26 anos e o carioca Paulo Lins, ambos também utilizando violência como matéria-prima de seu trabalho literário, teve muito a acrescentar ao tema em questão. Em sua obra recém lançada no Brasil: “Muito Longe de Casa - memórias de um menino soldado”, Beah, ex-combatente da guerra civil de Serra Leoa, conta os momentos de terror que viveu em seu país, mergulhado em sangue nos anos 90. Aos 12 anos, depois de assistir a inúmeras carnificinas, numa das quais seus pais foram assassinados, acabou sendo capturado pela guerrilha que tanto temia. Um fuzil AK-47 foi colocado em suas mãos e a ordem era uma só: matar. “De vítima da RUF passei a ser um deles”, conta. Depois de dois anos na rotina da violência, atormentado física e psicologicamente, Beah achava difícil distinguir a realidade dos sonhos de horror que sempre tinha. Houve um momento em que ele chegou mesmo a gostar de matar, como declara em seu livro. Tudo fruto de uma cruel lavagem cerebral e uso constante de drogas. “Muitas vezes matava citando Shakespeare: Covardes morrem muitas vezes antes de sua morte…”, declara.

    Depois de fugir para a vizinha Guiné, foi adotado por uma família americana e, desde 1998 vive em Nova York. Bacharel em Ciência Política, ele hoje faz parte da ONG Human Right Watch, e viaja o mundo dando palestras a convite das Nações Unidas. Ele sabe que está condenado a conviver com os fantasmas do passado, mas é a prova viva que a literatura pode impedir que pessoas enlouqueçam.

    Paulo Lins, autor do inesquecível “Cidade de Deus”, não pegou em armas, mas viveu trinta anos rodeado pela violência, no conjunto habitacional onde cresceu. “Tinha medo de sair de casa. Essa guerra não é tão diferente da descrita por Beah. Nas favelas do Rio morre mais gente do que sai no jornal. Os criminosos daqui são parecidos com os soldados de lá: eles se isolam da comunidade quando entram para o crime, vivem em um mundo à parte. Na favela, as pessoas sabem de quais famílias vão sair os criminosos, são geralmente famílias desorganizadas, cujos membros não têm estudos nem trabalho, são os mais pobres entre os pobres. Isso só se resolverá com distribuição de renda e escolas”.

    Reforçando as palavras de Lins, segundo o Unicef, mais de 250 mil menores estão nas frentes de batalha, nas mesmas condições de Beah – inclusive nas favelas brasileiras.

    Depois de ouvir as declarações dos autores, ler alguns de seus livros ou assistir a seus filmes, fica a impressão que não é só de violência, sob suas diversas manifestações – familiar, urbana, política, emocional, que tratam as obras dessa nova geração de escritores. Seu objetivo é nos mostrar realidades diferentes, mais cotidianas, desejosas de construir uma alternativa de ternura dentro de um mundo feroz. Afinal, como disse Guillermo Arriaga finalizando sua palestra: “Embora a dor seja inevitável, sofrer é uma decisão”. O que você faz com o mal, com a violência e o horror que vive ou presencia, é que define quem você é.

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