
“Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.”
John Donne(1572-1631)
Desde meados de 1999 com o começo da popularização da internet e a chegada dos famosos “kits multimídias” - que nada mais eram do que um microfone e um par de caixinhas de som - salas de bate-papo e programas como ICQ e mIRC fizeram sucesso entre usuários, que viam nessa então nova forma de se comunicar, um universo paralelo ao real, no qual poderiam suprir qualquer deficiência ou trauma, seja de ordem psicológica ou até mesmo física. Poderiam ser qualquer um, não havia limites. Por meio de nicknames e avatares, usuários extravasavam sentimentos em relação a si mesmo, que por muitas vezes têm como objetivo ser aceito e querido por todos.
Os anos se passaram e o comportamento do usuário na rede de certa forma mudou pouco, apenas se adaptou a novas ferramentas e avanços da tão falada web2.0. Chegaram então as redes sociais, na tentativa de organizar melhor nossa vida virtual. No Brasil a que mais se adaptou a nossa cultura foi o Orkut, que assim que caiu nas graças do grande público nunca mais parou de crescer por aqui, por mais que seu uso seja completamente deturpado e longe de um ideal de comunidade e de discussões sadias no qual acrescente algo em nossa vida real.
Uma das últimas apostas no modo de se viver online é o Second Life. Criado em 2003 pela empresa norte-americana Linden Lab, é literalmente uma segunda vida, onde você cria seu avatar - que no caso do SL é um personagem 3D – e projeta nele todas as características físicas e psicológicas. A preocupação com a aparência é tão relevante que existem até publicações online como a Second Style Magazine, onde você encontra dicas sobre moda, acessórios, cabelos e muitos mais para deixar seu avatar com mais estilo.
Por lá é possível andar (e voar!) por ruas (quase) iguais as do mundo real, interagir com outras pessoas, fazer compras, sair para dançar, paquerar, trabalhar, ir ao banco, entre outras atividades. Ultimamente, até distúrbios comportamentais do mundo real chegaram ao metaverso. Segundo o blog sobre cibersexo Sex Drive a polícia belga está investigando alegações de estupro dentro de Second Life, além de ameaças terroristas, vandalismo e racismo. Para que ninguém se perca e aproveite o máximo desse mundo virtual, existe até um guia real, o “Second Life: Guia de Viagem” da Editora Novatec, Neste guia, o escritor Edgard B. Damiani promete ensinar como interagir com outros avatares, fazer amizades, conseguir um emprego ou até mesmo montar seu próprio negócio ganhando em dólares Linden - o dinheiro usado no SL - que pode ser trocado por dinheiro real.
Criticado por muitos e idolatrados por outros tantos, desde sua criação o SL divide opiniões. No mundo de respostas rápidas da internet, essa divergência é um grande indício de que algo está errado ou está sendo mal aproveitado por seus usuários e/ou por seus criadores. O Estadão publicou recentemente uma reportagem do jornal americano Los Angeles Times na qual a jornalista Alana Semuels faz uma lista de empresas, entre elas Starwood Hotels, IBM e Reebok, que resolveram abandonar seus negócios no SL, o que seria o início de uma nova tendência. Um dos principais motivos seria a falta de público nas ilhas e lojas das companhias e consequentemente o baixo volume de vendas.
Neste mundo cada vez mais globalizado no qual estamos conectados a tudo e todos, as relações interpessoais acabam ficando sempre em segundo plano e a cada dia que passa nos tornamos coadjuvantes de nossa própria vida real. O que percebemos é que por mais tecnológica que se torne nossa segunda vida, a primeira sempre terá as mesmas necessidades emocionais e afetivas.
Confira a conversa que tivemos com dois responsáveis por blogs sobre o SL: o jornalista Pedro Burgos (26), que escreve para a Superinteressante e o técnico em informática Rodrigo Rodrigues (22) dono do blog BR Second Life.
Você acredita que experiências ocorridas no Second Life podem agregar valores para a vida real dos habitante desse metaverso?
Pedro Burgos: Sim, qualquer experiência social agrega valores. Mas é bem possível que o Second Life seja uma perda de tempo. Tem gente que usa só pra ficar jogando bomba nos outros, ou pra ficar comprando roupas sem parar… É possível conhecer pessoas de outras culturas - coisa que os brasileiros não costumam fazer muito, por definição - exercitar a criatividade, se divertir com pessoas queridas… Isso tudo é enriquecedor pra “vida real”.
Rodrigo Rodrigues: Sim claro , no mundo virtual é possível realizar várias atividades no qual talvez nunca tenha tido nenhum contato na vida real como por exemplo: Fotógrafo , DJ , Designer ou até mesmo coordenar projetos , e com o tempo essa experiência se bem traçada pode dispertar o interesse na vida real. Além disso , podemos ter diversos contatos estrangeiros , que servem para a prática e estímulo no aprendizado de outros idiomas.
Você acha que o SL acaba sendo um meio virtual de realizar aquilo que as pessoas não podem atingir no mundo real?
Pedro Burgos: Sim também, e não acho que isso seja necessariamente ruim. É claro que ter um carrão virtual não vai satisfazer ninguém, mas outras fantasias, como conhecer outros lugares (há boas réplicas de atrações turísticas), pertencer a um grupo de punks, ou de bichos de pelúcia, ou seguir uma outra religião, são semi-realizáveis dentro do metaverso. O que eu acho mais curioso é a parte sexual, onde há quase o mesmo tanto de ilhas que oeferecem bondage, sado-masoquismo e variações menos ortodoxas de sexo do que as que oeferecem o feijão-com-arroz da parte erótica. Ou seja: as pessoas “experimentam” (aspas bem grandes aqui) outras formas de prazer sexual do que estariam na sua vida normal. De repente a pessoa se anima e experimenta isso no cotidiano, ou desencana, mas a experiência pode ser enriquecedora. Mas acho que o propósito do SL é você viver uma vida diferente da sua normal - essa é a proposta, tanto é que você não tem como jogar com seu nome de verdade, os sobrenomes disponíveis são sempre meio esquisitos.
Rodrigo Rodrigues: No Second Life temos os mais variados perfis , acredito que entre os perfis há sim quem tenha esse intuito parcialmente ou integralmente. Quem nunca teve vontade de voar? (rsrs…) Já ví um caso verídico onde o avatar na vida real é paraplégico , no virtual ele não tem nenhuma limitação. Mas certamente o mais utilizado deve ser refente a estética onde homens podem ser bonitos e musculosos e mulheres com corpos esculturais.
Relacionamentos virtuais existem desde o começo da internet, com as salas de bate-papo e programas como ICQ, por exemplo. Podemos dizer que o SL é uma evolução de tais ferramentas?
Pedro Burgos: Sim, acredito que o SL ou o Orkut não existiriam se não fosse os programas de bate-papo, ou pelo menos não dessa forma. O SL incorpora as sacadas do ICQ, como a lista de amigos, os grupos, etc.
Rodrigo Rodrigues: Creio que sim , na vida real os relacionamentos constuman começar em lugares que gostamos ou através de amigos. No mundo virtual isso pode ser seguido ao pé da letra! Nos chats muitas vezes já se começa com perguntas do tipo “Você tem foto?” e se não te agrada normamente você não fala mais com aquela pessoa , no mundo virtual tudo começa na amizade em lugares e ambientes que frequenta trocando dicas , conhecimentos e interesses e etc…Com isso as coisa vão fluindo naturalmente pondo a aparência física real da pessoa entre os últimos itens!
O SL possui alguns pré-quisitos como placa de vídeo apropriada, download e instalação do programa e conexão rápida. Você acha que isso acaba limitando o acesso de usuários, principalmente no Brasil?
Pedro Burgos: Sem dúvida. Se o SL fosse mais “leve”, o Brasil poderia brigar pra ser o país com maior número de usuários, junto dos EUA - assim como o Orkut. Há uma demanda muito grande entre as pessoas que utilizam o software que a Linden Labs (criadora do jogo) abra totalmente o código para permitir à comunidade fazer melhoras no programa, que é pesado demais, considerando os gráficos.
Rodrigo Rodrigues: Sim , assim como há também limitação ao possuir uma banda larga e um bom hardware para muitos no Brasil!É comum , vermos pessoas relatando suas experiências no SL como horríveis onde todas se queixam da lentidão ou problemas de incompatibilidade de hardware. Se todos tivessem condições de ter um bom equipamento e banda larga certamente a quantidade de usuários ativos no SL seria bem mais considerável
O cresecente aumento de relacionamentos virtuais está relacionado diretamente com o aumento do individualismo de cada um, onde temos muito mais amigos online do que ao nosso redor?
Pedro Burgos: Acredito que não. O individualismo talvez esteja mais ligado a outros elemntos da nossa sociedade. Acho que a internet, pelo contrário, está mostrando que a sociedade, especialmente os geeks, são mais altruístas que se pode imaginar. Veja o Second Life, onde tudo é construído pelos residentes, 99% não é visando o lucro. Ou a Wikipedia, onde anônimos constróem o conhecimento, ou na infinidade de softwares com o código aberto, freewares… E acho que é normal que quando você encontre amigos com interesses tão afins - a internet dá a possibilidade de se achar gente que gosta das mesmas coisas, mesmo tipo de humor, etc - é normal que você busque o convívio com essas pessoas. Pode soar meio duro, mas às vezes temos várias restrições aos “amigos a nosso redor”, mas convivemos com eles na falta de opções melhores. A internet dá “opções melhores”.
Rodrigo Rodrigues: Infelizmente sim , e isso vem acontecendo cada vez mais cedo! Jovens que até alguns anos atrás ficavam com amigos na rua em atividades esportivas e ou brincadeiras hoje ficam dentro de casa na internet e ou vídeo-game. Com 12 anos na minha época, eu mal sabia oque era um relacionamento , hoje em dia isso é algo de conhecimento da maioria nessa idade e creio que a internet contribuiu para esse avanço.
Para finalizar, entre a primeira e a segunda vida, fique com as duas?
Pedro Burgos: A Segunda faz parte da primeira. Por mais que você possa voar e se teletransportar no SL, a primeira vida sempre vai ter mais possibilidades.
Rodrigo Rodrigues: A primeira! A segunda encaro como um passa-tempo como outro qualquer que todos tem em sua vida. Para alguns este passa-tempo se tornou algo a mais , uma fonte de renda. Mas é a minoria , essa é a realidade!










Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!