
“Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Imagine que de uma hora para outra você deixasse de enxergar e surgisse no lugar das imagens, apenas uma luz extremamente clara, deixando tudo absolutamente branco como leite. Agora, imagine se isso acontecesse de uma outra para outra, sem mais nem menos, enquanto você dirige seu carro ou caminha sozinho pela rua. Toda sua independência e a liberdade de ir e vir estariam agora nas mãos de estranhos.
Esse é o cenário caótico de Blindness - nome “internacional” do novo filme do diretor de “Cidade de Deus” e “O Jadineiro Fiel” Fernando Meirelles - baseado no livro de 1995 do escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel da Literatura em 1998.
A cegueira branca contada por Saramago aos poucos revela toda a verdadeira natureza do ser humano. Um ser individualista e egoísta, incapaz sequer de sobreviver sozinho apesar de não ter decência para admitir isso em público. Assim como no livro, o filme mostra toda a degradação de uma sociedade subitamente cega. Ações simples como ir ao banheiro, comprar comida e beber água se tornam praticamente impossíveis. A sujeira se acumula por todos os cantos e ratos dominam as ruas da cidade.
Pensando ser tratar de um epidemia altamente contagiosa, o exército decide que os cegos devem ser imediatamente isolados do restante - ainda sadio - da população. Nessa quarentena claustrofóbica, são obrigados a lutar pela vida usando muitas vezes de violência que nem imaginavam possuir. Mulheres são obrigadas a se prostituir por comida (as cenas de estupro tiveram um “leve corte” por recomendação da distribuidora americana Miramax) enquanto saqueadores trocam socos em um supermercado na disputa por um saco de biscoito. Uma verdadeira terra de ninguém.
Comparações entre a versão escrita por Saramago e o roteiro do canadense Don McKellar filmado por Meirelles, sempre vão acontecer, apesar de todo mundo saber que são duas linguagens diferentes e cada uma possui suas particularidades. Mas uma coisa que não podemos deixar de valorizar é o enorme esforço da equipe em transpor uma história sem imagens e com personagens sem nomes, em uma produção audiovisual de 120 minutos de duração sem perder a carga emocional - mesmo que em menor escala - presente no livro.
Blindness - que estréia oficialmente semana que vem, dia 12 de setembro - é um filme que te fará refletir sobre o comportamento humano diante das adversidades da vida. Para quem não não está familiarizado com a história, talvez ache um pouco difícil compreender a cegueira metafórica em questão.
Duante as filmagens, Meirelles escreveu um blog contando detalhes interessantes e curiosidades sobre a produção do filme. Infelizmente parou de escrever após perceber a dimensão que seus textos tomaram, sendo traduzidos em outras línguas e publicados em diversos lugares. Mas vale a pena dar uma passada lá.