
Criança! não verás nenhum país como este!”
(Olavo Bilac – A Pátria)
Parece que virou moda. Nas bancas de jornais, grande parte das revista – de ciência à economia - trazem estampada na capa o assunto do momento: aquecimento global. O cinema também entrou na onda e até lançou o novo gênero dos chamados “filmes verdes”, como ficou conhecido os filmes ecologicamente corretos que invadiram Hollywood ultimamente, a começar pelo documentário vencedor de vários prêmios incluindo dois Oscar, “Uma Verdade Inconveniente” (2006), idealizado pelo candidato à presidência dos EUA, Al Gore e dirigido por Davis Guggenheim.
Mas, e se falássemos aqui que o tema não é novidade e que está presente em publicações muito mais antigas do que a revista da semana passada? Esse é o caso do livro de ficção científica “Não Verás País Nenhum” do jornalista Ignácio de Loyola Brandão, publicado originalmente em 1981 e que esse ano recebe uma edição especial de comemoração aos 25 anos pela Global Editora, com extras bem interessantes como o prefácio escrito por Washington Novaes, jornalista especializado em meio ambiente, e 32 páginas coloridas com o “Diário de Trabalho”, escrito durante a produção da obra, onde estão registrados entre outras curiosidades, a evolução dos textos, o questionamento do significado das cenas e o surgimento dos personagens, por exemplo.
Em entrevista à rádio CBN, Loyola Brandão disse que durante todo o processo de criação, teve como trilha sonora a mesma trilha de “Apocalypse Now” (filme de Francis Ford Coppola, de 1979), e o resultado disso foi uma narrativa de extremo teor apocalíptico mesmo: um Brasil imerso ao caos, a miséria, a um sistema político totalitário e sufocante e ao clima completamente desumano, onde água é um item mais precioso que dinheiro, comida não passa de uma reprodução científica e realista daquilo que um dia foi chamado de alimento e o direito de ir e vir foi simplesmente abolido.
Souza é um ex-professor de história, pacato e conformado que vive tranquilamente sua rotina diária ao lado de sua dedicada esposa Adelaide, embora a situação do país esteja ao que se pode chamar de insustentável, até o dia em que um misterioso buraco indolor aparece em sua mão e o faz acordar para a realidade insana que o cerca. A partir de então, começa a questionar sua vida insossa calcada nas lembranças e no comodismo diante a degradação sócio – político - ambiental maquiada por campanhas governamentais. Nascera em outra geração, conhecera a vida e a natureza, como pôde assistir calado, a transformação do mundo ao estado que se encontra agora?
É na resposta a esta pergunta que se encontra todo o caráter profético do livro. Assistimos calados a destruição da nossa espécie, porque somos parte causadora do problema. Destruímos nosso planeta por que fazemos um uso egoísta dele. Fechamos os olhos para situação e culpamos o próximo. Aceitamos qualquer coisa que nos é imposta e vivemos num comodismo cego.
O livro trata da banalização do Ser, da convivência insólita com a violência, com a fome e a miséria, da destruição ambiental e da “cara-de-pau” do governo corrupto e incompetente que rege este país fazendo seu melhor para nos fazer acreditar que vivemos num mar de rosas chamado Brasil. É impossível não se identificar com as situações retratadas e perceber o quão próximos estamos delas. Afinal, já estamos acostumados com a violência e aprendemos a nos defender dela: é só não sair com nada de valor na rua, oras, ou não ficar perambulando tarde da noite (como se crimes bárbaros só acontecessem à noite…), pagar seguro e ser bonzinho quando for assaltado. Também já nos é natural ver um irmão morrer de fome e frio na calçada, passar por cima e compreender que uns infelizmente são mais privilegiados do que outros e que não temos nada o que fazer a respeito.
“Não Verás País Nenhum” é uma alerta do caos que está por vir. Cabe a nós decidir se assistiremos calados, como Souza, a transformação do país (mundo?) num forno miserável e inabitável, ou não.










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