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    Canal: Literatura - Por: Cibele Gomes @ 3:56 pm -

    Mastigando Humanos

    Adaptar-se. Ser sociável. Amar e ser amado. Cumprir as regras. Obrigações impostas pela evolução da espécie humana a serem obedecidas para ser aceito. Essa é uma situação presente na vida de todos, em especial na fase transitória da vida que chamamos de adolescência, embora para alguns essa fase às vezes perdure um pouco mais do que deveria.

    “Eu fiz uma longa viagem pra chegar até aqui. Não nasci em berço de ouro, pra depois ser jogado na privada. Nem fui criado às margens desta poluída cidade. Tive uma infância e adolescência ordinárias, como a maioria da minha espécie, e talvez tenha até demorado um pouco pra seguir meu próprio caminho, mas não demais. Afinal, os caminhos abertos a nós sempre foram abertos por outros, não são nossos, real ou exclusivamente…” Assim começa “Mastigando Humanos“, mais recente romance Santiago Nazarian, paulistano de 30 anos formado em publicidade, que além de escritor é também tradutor e tem experiências nada convencionais como ter trabalhado como roteirista de disk-sexo, barman de prostíbulo gay em Londres e ter dividido apartamento com um traficante de ecstasy em Paris. Toda essa diversidade se traduz em romances intensos e originais, como “Olívio”, “A Morte sem Nome” e “Feriado de Mim Mesmo”, seus livros anteriores.

    “Mastigando Humanos” não é diferente. Descrito pelo próprio autor como “psicodélico”, o livro conta, entre travestis, esgotos, miscigenação de espécies e cultura moderna, a história de um jacaré que migra do seu habitat natural para o esgoto de uma grande cidade em busca de mudanças. No decorrer de sua aventura conhece personagens tão originais quanto ele próprio, acaba se “socializando” e enfrentando dilemas como engolir ou não seus “amigos” por uma satisfação pessoal de prazer e fome, submeter-se a uma hierarquia social, na qual não via sentido algum, ou desenvolver uma carreira profissional bem sucedida para sentir-se completo, embora seu sonho fosse outro. Adaptar-se às diferenças físicas e culturais pode ser um grande problema e esse problema fica muito bem ilustrado na figura estranha, verde e desajeitada do jacaré. Afinal é assim que nos sentimos muitas vezes quando somos adolescentes e estamos nos desenvolvendo física e psicologicamente.

    Entre uma reflexão e outra, percebemos que essa história poderia ser a sua, ou a minha, ou de qualquer pessoa que a fim de uma nova vida, longe das lembranças de infância, do mimo dos pais ou de qualquer outro problema decide procurar oportunidades traçando seus próprios caminhos, enfrentando suas próprias dificuldades e acabamos por encontrar nossas próprias questões sobre a vida nas dúvidas dos habitantes daquele esgoto.

    O livro é uma metáfora sensível e divertida da natureza humana e das obrigações cotidianas as quais nos submetemos por medo, amor, ou conformismo, mesmo que contado pela ótica de um jacaré. Confira abaixo a conversa que tivemos com Santiago Nazarian.

    Mastigando Humanos, diferente dos seus livros anteriores, tem um toque de humor e uma narrativa muito mais divertida. Por que você optou por esse tipo de linguagem?
    Para me diferenciar dos livros anteriores. Você sabe, procurar desafios, novidades. Eu já me sentia confortável na narrativa “noir” ou “trevosa” e não queria correr o risco de me repetir ou me tornar um clichê do “jovem derramado em sangue”. Além disso, o humor e as referências pop, ao meu ver, eram importantes para tratar do tema do livro: a adolescência, os ritos de passagem e de amadurecimento.

    Levando em consideração essa reflexão do ser humano pela ótica de um animal, é possível traçarmos um paralelo entre o seu personagem e o personagem de Franz Kafka, em “A Metamorfose”?
    Talvez. Gosto muito de Kafka. “A Metamorfose” foi de certa forma uma influência para meu terceiro romance, “Feriado de Mim Mesmo”. Eu queria trabalhar aquela micro-narrativa no livro, aquele tom de novela minimal-surrealista, com poucos personagens, todos os acontecimentos restritos a um único espaço – até porque meu tema era o tédio e o individualismo. Mas essa não foi uma influência tão consciente em “Mastigando Humanos”. Embora haja uma citação a Kafka, acho que a influência era mais Burroghs em “Naked Lunch” e, principalmente, o filme B “Alligator”, que passava no SBT durante minha infância, e o desenho animado das “Tartarugas Ninjas”. Enfim, é um romance muito calcado em tudo o que formou meu repertório.

    Você disse em uma entrevista que as ilustrações de Mastigando Humanos foram feitas por um rapaz que encontrou por acaso em um blog e que todo o processo de criação foi acompanhado por e-mail. Como foi essa experiência?
    Foi ótimo. As ilustrações não interferiram diretamente no livro, ele já estava escrito quando partimos para esse processo, mas elas serviram para pontuar passagens e sublinhar frases, até porque o livro não tem capítulos, então era bom ter algo para ventilar. Todo o processo de ilustração foi conduzido por email. Eu dizia o que queria e o Marco Túlio realizava. O traço é dele e algumas idéias vieram dele. O mais complicado mesmo foi fazer a capa, quando decidimos que seria formada apenas por o lettering, com cada letra vindo de uma figura. Isso foi bem lento, demorou bastante para encontrarmos cada letra.

    Depois que Feriado de Mim Mesmo foi adaptado para o cinema, o modo como você escreve sofreu alguma influência, tendo em vista a possibilidade de novas adaptações?
    Não. “Feriado de Mim Mesmo” não foi escrito diretamente para cinema, mas ele tem essa pegada cinematográfica talvez pelo fato de eu gostar muito de filmes. “Olívio” tem um pouco disso também, meus outros dois romances não. Se eu estivesse preocupado em adaptar meus romances para o cinema, jamais escreveria em seguida algo com um jacaré como protagonista, não é? Aliás, acho um pouco inviável se escrever romances no Brasil pensando em adaptações. Compra-se pouco direitos alheios. Geralmente os diretores querem fazer suas próprias histórias – e geralmente essas histórias são ruins, sim, porque diretores não são necessariamente bons escritores. Eu tenho trabalhado bastante com cinema, escrevendo roteiros, mas são histórias que surgem na cabeça dos diretores e eles me chamam por eu ser escritor, para colocar no papel. Quero dizer, os escritores lêem meus livros, adoram e me chamam para escrever as histórias deles. Provavelmente eles devem achar que meus romances não rendam bons filmes. De qualquer modo, minha prioridade é sempre meu trabalho de escritor, o livro impresso, é essa minha maior paixão.

    Traduzir textos de outros autores requer técnica e sensibilidade. O fato de ser escritor facilita nos seus trabalhos como tradutor?
    Acho que sim, porque além de um bom inglês (ou da língua original que você esteja traduzindo), você precisa ter um bom português para ser um bom tradutor. Quero dizer, você precisa saber escrever, criar o ritmo das frases, ter um bom vocabulário. Você me perguntava se o cinema influiu na minha literatura e eu disse que não, mas as traduções influem sim, e muito. Acho que nada transforma e interfere tanto na minha literatura como trabalhar em traduções, o que de vez em quando é até temeroso, porque nem sempre eu gosto dos livros que estou traduzindo, e mesmo assim eles influenciam. Você fica mergulhado no universo de outro autor por meses, lendo e reescrevendo a fundo, é claro que isso marca seu próprio texto de alguma forma.

    Enquanto continuamos mastigando humanos, você pode nos contar alguma coisa sobre seu próximo livro?
    Não muito. Ainda temos um ano e meio, mais ou menos, para ele ser lançado. Posso dizer que é um romance litorâneo, e claro que não é uma praia paradisíaca, é mais um cenário semi-industrial degradado. Não há um único protagonista, mas sete. O livro tem um certo humor, só que mais sutil do que “Mastigando Humanos”. E isso é tudo que posso dizer por enquanto.

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    Uau! 2 comentários até agora! ;)

    #1

    Li o livro mastigando humanos e achei muito bom… as criticas a sociedade… Simplesmente genial…

    Michele comentou em 12 Maio, 2009 - 1:44 pm
    #2

    Puuts q coisa chata –’ eu gosto de leer mais minha professora mandou fazer um fichamneto sobre este livro –’ ninguem merece >.<

    Fuck this book comentou em 5 Agosto, 2009 - 10:26 am
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