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    Canal: Cinema e Vídeo - Por: Daniel Santiago @ 12:02 pm -

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    “Nosso Senhor Jesus Cristo, estando para ser entregue, tomou o pão, deu graças, o partiu e deu aos Seus discípulos dizendo: Tomai e comei. Este é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto para celebrar a minha memória. Do mesmo modo, Ele tomou o calíce, deu graças e deu a eles dizendo: tomai e bebei todos vós, este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança que é derramado por vós para o perdão dos pecados. Fazei isto para celebrar a minha memória.”
    Assim começou a missa naquele domingo de muito frio em uma pequena paróquia na Suécia.

    Em Luz de Inverno ( Nattvardsgästerna 1962), segundo filme da Trilogia do Silêncio (Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio), Ingmar Bergman - junto de seu inseparável diretor de fotografia Sven Nykvist (1922-2006) - nos apresenta mais uma perturbadora reflexão existencialista sobre o indíviduo e seu criador. Deus está silêncioso ou somos nós que não o escutamos mais? Essa é a questão fundamental do filme que conta a história de Tomas Ericsson - interpretado pelo brilhante ator Gunnar Björnstrand (1909-1986) - que vive um pastor abalado física e psciológicamente devido a crise em sua fé.

    Após ler no jornal que a China possui a bomba atômica e pretende usá-la, um pescador com pensamentos suicídas chamado Jonas Persson - interpretado por ninguém menos que Max von Sydow - após a missa vai ao encontro de Tomas em busca de palavras de conforto e consolo para acalmar sua angústia, reflexo de uma profunda subjetividade compulsora repleta de dúvidas. O pastor por sua vez só consegue falar da sua própria relação tormentosa com Deus, agravando ainda mais seu sentimento de vazio e carência espiritual. Ao final Tomas diz:

    “Se Deus não existe…isso realmente faria alguma diferença? A vida se tornaria compreensível. Seria uma alívio. E a morte seria a extinção da vida. O fim do corpo e do espírito. Crueldade, solidão e medo…todas essas coisas seriam claras e transparentes. O sofrimento é incompreensível, portanto não exige explicação. Não existe um criador. Nenhum provedor da vida. Nenhum desígnio. Deus..por que me abandonastes?”

    A professora Märta Lundberg - interpretada pela atriz Ingrid Thulin (1926-2004) - oferece a Tomas o seu amor como consolo pela perda de fé, mas Tomas resiste. Com sentimentos egoístas e incapaz de amar, Tomas acaba magoando-a ainda mais com sua falta de sensibilidade aos problemas alheios. Bergman deixa claro em uma cena, que a falta de crença e dúvidas em relação ao futuro não faz parte só do mundo adulto. Quando o pastor pergunta a um garoto se ele fará aulas de catecismo, ele responde que não e não sabe o motivo.

    Sartre e o Existencialismo
    O Existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade. O existencialismo considera cada homem com um ser único, senhor de seus atos e seu destino. Sartre - filósofo existencialista francês do início do século XX - afirma que o existencialismo é um humanismo, pois segundo ele, é a única doutrina que deixa uma possibilidade de escolha ao homem. Ele inicia sua argumentação explicando que existem duas espécies de existencialistas: os cristãos e os ateus, que teriam em comum o fato de admitirem que a existência precede a essência ou, em outras palavras, que temos de partir da subjetividade.

    Segundo Sartre o existencialismo ateu é mais coerente. Ele declara que Deus não existe e que a existência precede a essência. Logo os seres existem antes de poderem ser definidos por qualquer conceito. Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define. Assim, não há natureza humana visto que não há Deus para a conceber. O esforço do existencialismo, é o de pôr todo homem no domínio do que ele é capaz e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência.

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