
“O jornalista nunca teve o monopólio da informação.” - Mílton Jung
Que a internet cada vez mais vem se tornando um dos principais veículos de comunicação não há dúvida. Informações - verdadeiras ou não - se espalham rapidamente através de diversos serviços online como MSN, Twitter, Redes Sociais e Blogs. Com isso, leitores, telespectadores e ouvintes passaram a produzir e distribuir notícias além de interagir diretamente com o conteúdo gerado por grandes sites de notícias e tradicionais jornais e emissoras de rádio e TV. Mas como essas mudanças afetam o dia-a-dia de profissionais de jornalismo?
Para falar um pouco sobre esse assunto, conversei com Mílton Jung, âncora do CBN São Paulo, jornalista e responsável pelo Blog do Mílton Jung.
Como você iniciou sua carreira jornalística?
Como produtor, redator, repórter e etcetera e tal de um programa sobre esporte amador, na rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1984. Este foi o início oficial, mas meu cotidiano já estava ligado ao jornalismo há bastante tempo. Filho de jornalista, afilhado de jornalista e sobrinho de jornalista, convive com jornalistas desde pequeno. E a redação era meu parque de diversões nos plantões de fim de semana.
Desde lá, trabalhei nas TVs Cultura, Globo, RedeTV! e SBT. Estou desde 1998 na Rádio CBN. E realizo palestras na área de comunicação.
Com a crescente popularização da internet, a maneira de se consumir notícias vem mudando bastante. Hoje, além das mídias tradicionais como jornal, rádio e tv, alguns blogs estão conquistando cada vez mais seu espaço na rede e atingindo números cada vez maiores de pessoas. Como você vê esse novo comportamento?
O jornalista nunca teve o monopólio da informação. Haja vista, as vizinhas fofoqueiras lá da minha rua. Eram elas que sabiam o que estava acontecendo no quarteirão. Bem verdade que algumas acreditavam no ditado de quem conta um conto aumenta um ponto. Mas e os jornalistas ? Quantas vezes agiram assim, também ?
O que estou querendo dizer é que a tecnologia amplia o espaço de divulgação de notícia e maior número de pessoas têm possibilidade de transmitir conhecimento. Os que conquistarem credibilidade com o serviço oferecido serão os mais bem sucedidos.
Com minhas vizinhas também funcionou assim. Tinha uma, Dona Olga, que não deixava escapar nada. Podia confiar nela. A outra, Dona Hortência, não passava de uma fofoqueira sem escrúpulo.
Através do seu blog na CBN, você mantém um contato direto com leitores e ouvintes. Podemos afirmar que esse tipo de feedback imediato seja fundamental no jornalismo atual?
Os ouvintes-internautas não são apenas consumidores de notícia, são fonte de informação, também. Por isso conservo este contato com eles seja respondendo a mais de 200 emails por dia, sendo atendendo aos pedidos enviados pelo blog.
No primeiro capítulo do livro que escrevi, Jornalismo de Rádio (Ed. Contexto), conto a história do telefone que não para de tocar na redação e os jornalistas não encontram tempo para atendê-lo. Quanta informação desperdiçamos desta maneira, quanto ouvinte perdemos devido a esta situação. Com a internet, não há mais desculpa.
Como surgiu a idéia da utilização do twitter como mais uma forma de contato com os ouvintes da rádio?
Soube da ferramenta em uma revista especializada em computadores da Apple. Há um ano vinha ensaiando esta possibilidade. Mas acabara de entrar de cabeça no blog e precisava amadurecer este trabalho. Neste ano, testei o serviço e aprovei. É um excelente canal para divulgar informações rápidas, atualizar dados, contar curiosidades de bastidor e saber das coisas. Dependendo o grupo de contatos que você constrói é possível saber informações antes delas terem sido divulgadas pelos veículos tradicionais.
Devido a agilidade da internet, as notícias hoje em dia são publicadas praticamente em tempo real. Com isso, acabam acontecendo alguns equivocos como o caso do incêndio em um prédio em São Paulo que foi confundido com a queda de um avião causando informações desencontradas em diversos sites e portais. Você acredita que deva existir critérios mais rigidos no jornalismo online, já que as notícias verdadeiras ou não, se espalham muito mais rápido do que em outros meios de comunicação?
Justiça seja feita. Os portais só publicaram a informação após a GloboNews divulgar a notícia. Portanto, se houve precipitação foi lá na TV, os sites cometeram outro erro: não checaram a informação. Alguns erraram mais porque “esqueceram” de seu erro e, simplesmente, apagaram a notícia de seus arquivos. Faltou honestidade.
Mas vamos a sua pergunta: Novos serviços de informação cometem os mesmos erros cometidos pelos velhos serviços de informação na época em que eram novos. Explico: o rádio durante muitos anos abriu mão da precisão em nome da agilidade, pagou com credibilidade. Precisou amadurecer. Com a internet, os blogs, e os mini-blogs ocorre o mesmo. Terão de amadurecer.
Em épocas de eleições, o que você pensa sobre as restrições do TSE com relação à campanhas eleitorais na internet?
Uma atraso. E a falsa idéia de que somos capazes de controlar tudo e todos. Muito provavelmente já haverá avanços nas próximas eleições daqui dois anos.
Já se discutiu muito sobre polêmica “blogueiros X jornalistas”. Qual sua opinião a respeito?
Polêmica neste sentido interessa apenas a quem faz jornalismo olhando para o seu próprio umbigo, para quem se considera mais importante do que a notícia e para quem quer aparecer (ou precisa). Todos aqueles que atuarem com seriedade e competência em suas áreas têm de ser respeitados. Não interessa se no crachá do profissional está o nome de uma grande, tradicional e velha empresa de comunicação; ou se sequer o profissional use crachá.
(Foto: Júlio César Dorini)










Uau! 2 comentários até agora! ;)
Muito bem embasada a entrevista do Mílton Jung. Aliás,quem acompanha o trabalho do entrevistado na CBN,não se surpreende com suas idéias sempre bem expostas.
A bem verdade que jornalistas, jornais, revistas se sentem ameaçados pela nova forma de compartilhar informação que são os blogs, midia social, etc. Prova disso foi uma propaganda veiculada pelo Estadão, na minha opinião de extremo mal gosto, denegrindo a imagem de blogueiros. O que eles têm que entender é que acabou, terminou a ditadura da informação! Agora a informação não anda mais em mão única. Agora ela é interativa, colaborativa coisa que não existe em um jornal ou revista, que impõe suas opiniões e visões sem que haja espaço para trocas e interatividade. Sinto informar aos jornalistas, mas a época da ditatura da informação também acabou: bem vindos a era da colaboração e interação!
Ótimo assunto abordado. Parabéns!